Vende-se qualidade de vida
Há algum tempo no discurso empresarial se fala em qualidade de vida, nome que deram às condições da vida satisfatória de um ser humano, algo que envolva o bem físico, mental, psicológico e emocional, além de relacionamentos sociais, como família e amigos e também a saúde, educação e outras circunstâncias da vida.
Em termos práticos, o universo ocupacional percebeu que o homem "bem" nessas esferas, produz melhor, foco de suas atividades. Logo, algumas empresas adotaram medidas para favorecer que seus pupilos pratiquem tal filosofia, montando academias, espaço para yoga, pilates, fins de semana em hotéis fazendas praticando esporte radical,confraternizações sociais e a mais nova a espiritual, onde é possível vivenciar um resgate religioso. As menores organizações não estão imunes, se não podem oferecer na prática o fazem na teoria, disseminando em seu discurso a qualidade de vida como valor organizacional.
Vocês devem estar se perguntando: isso não é bom? De fato, um olhar desatento diria que sim,mas tenho a sensação que o bem-estar do trabalhador se tornou um produto, à venda como se fosse um item da moda ou de um supermercado, passível a ser adquido de um dia para o outro.
Vejo constantemente falas imperativas do tipo: coma isso! não coma aquilo! viaje! vá á academia! Invista na Educação! etc. Ordens e não possibilidades, sem contar o filão de negócios lucrativos.
O interessa é que precisamos ver os dois lados da moeda, se de um lado está a chance de venda, do outro a espera da compra. Lazer, por exemplo, para a maioria é sinônimo de gastos: ir a um bom restaurante, cinema, shopping, viajar e assim por diante. Não nego que as duas primeiras opções não me atrae, que delícia comer bem, juntamente com aquele vinho da safra x e noutro dia apreciar o filme ou a peça y.
O fato é que vejo muitos amigos se queixando da falta de lazer, o quao oneroso se tornou e que em vez de prazer gera desprazer no final do mês, ao verificar o saldo do cartão. E os com poder aquisitivo menor pontuam não ter lazer porque não podem pagar, têm outras prioridades.
Em contrapartida, outro dia quando estava no SESC, instituição que promove eventos culturais à população, como muitas outras no Brasil, pensei: estou em um sabado á tarde assistindo a um show de MPB, com excelente qualidade, me sentindo tão bem por estar ali e sem gastar nenhum centavo! Me virei para a platéia, notando que havia poucas pessoas prestigiando uma grande oportunidade de estar em contato com a arte, com a música ou com a tão falada qualidade de vida.
Indignada comentei a uma colega o que pensara e ela de pronto me respondeu: " ora, não valorizam o gratuito, desmerecem a sua qualidade". E fiquei refletindo na sua fala por dias.
Uma semana depois, fazendo a minha caminhada habitual, em uma área arborizada da cidade e também gratuita, vi que em seu redor havia várias academias e todas estavam abarrotadas de clientes.
Vejam, não prego utopias, tampouco protestos à frequencia de tais estabelecimentos, como disse aprecio-os. O que realmente me incomoda é o discurso de que o "bom é o caro", que "não temos lazer sem dinheiro" ou ainda que no interior não há cultura.
Para os leigos digo: - Há e precisamos participar, prestigiar os artistas que vem de todo o Brasil.
E o fundamental é que não podemos colocar preço na qualidade de vida, tampouco considerar lazer somente aqueles que o capital permite. Afinal lazer é individual (cada um tem um gosto) e possivel a todas as pessoas. Caminhar,ler um livro, conversar com amigos, familia ou filhos, escutar música, ir ao SESC todos os sabados ás 16 hs assistir uma apresentação,visitar um parente, dançar no quintal de casa, contar ou ouvir piada ou histórias etc.etc não tem preço e certamente nos dará uma sensação de bem-estar incrivel.
É preciso resgatar formas de existir que nos faça bem, sem entrar em modismos que ditam o que e como devemos viver. Tirar da vida formas que junto aos nossos pares possamos ter momentos prazerosos ou simplesmente descanso ou ócio.
Não somos máquinas em prol do dinheiro, somos seres com vontade de viver bem.Leia Mais


